Sunday, October 21, 2007

ainda antes do OE2008

outubro. A pausa do Orçamento do Estado para 2008 está para chegar à semelhança de anos anteriores. Entretanto uma cirurgia atirou-me um pouco ao chão de cansaço.

Mas não o suficente para ir descansar de olhos fechados.

E hoje, eis que abro os olhos e vejo num dos deprimentes telejornais que nos são servidos nesses canais de televisão, o senhor presidente da república saúdar o governo pela capacidade que teve de estabelecer o Tratado de Lisboa.

Apesar do grandioso embuste montado em torno do papel do governo português no chamado Tratado Europeu, a situação em que nos encontramos não deixa de ser política e socialmente preocupante.

1. o embuste: alguém acredita mesmo que o facto de portugal ocupar neste momento a presidência europeia tem alguma coisa a ver com os consensos estabelecidos em torno do tratado? alguém acredita, porventura, que foi a extrema e mundialmente reconhecida capacidade negocial diplomática portuguesa que conseguiu catapultar um texto da sepultura novamente para a cena política actual? claro que o papel de portugal, tal como do governo português nos textos, nos tratados, nos conteúdos, nos acordos, nas estrtégias, é completamente insignificante. No entanto, a ideia de que o governo português tem sido, no âmbito da presidência, um elemento fulcral ao desenvolvimento da estratégia europeia do grande capital e, no mínimo, ridícula. A exaltação dessa ideia, por outro lado, tenta criar sub-repticiamente, um clima de confiança popular neste governo decrépito - ou seja, é mais uma das grandes grandes armadilhas mediáticas e propagandísticas que este governo nos tem montado. desta feita com a ajuda do presidente da república, o que também não é de espantar. E, claro, com a sempre prestável complacência e até incentivo da própria união europeia federal da qual o governo português é aplicado pupilo. O capital vai tecendo a matriz das suas novas regras legais na europa, com a ajudinha de todos, e todos ajudando o governo do capital.

2. o local: o presidente da república... sim... é incrível mas é esse mesmo, Aníbal Cavaco Silva, fez parte da comitiva oficial da inauguração do museu do neo-realismo que, se não estou em erro, se situa em Vila Franca de Xira, terra natal de Alves Redol. Nessa comitiva participava também a ilustríssima senhora ministra da colecção berardo (também chamada de "cultura" desde 2005 em Portugal). E lá andavam sempre de sorriso todos inaugurando o bonito museu. Nas suas caras era indisfarçavel a náusea cada vez que observavam qualquer parte do museu, fosse um livro de alves redol, uma gravura de álvaro cunhal, lá lhes vinham os vómitos à boca. Mas claro, mantém-se a pose: aliás até convém varrer para a dimensão das memórias o movimento neo-realista, para o corredor enfermo dos museus, desde que não fique por aí nas ruas, no sangue palpitante das gentes. Mas voltando ao que aqui me trouxe: o local e a ocasião. Cavaco Silva foi, como é habitual, entrevistado por um vasto conjunto de jornalistas de diversos órgãos de comunicação social. E que nos disse sobre o neo-realismo? nada. Absolutamente nada. Valorizou o empenho do Governo de Sócrates e a capacidade de chegar a um novo Tratado. Sobre referendo: que a Assembleia da República e o Governo darão em devido tempo a sua palavra e só então, por essa altura se pronunciará. E pronto, cumprida a visita fastidiosa de "musealização" da luta artística do movimento neo-realista, restava apagar completamente a importância das obras, da sua ligação com determinados períodos da história, da sua íntima relação com a luta do povo português, da sua permeabilidade com o movimento operário e comunista. O que melhor se não a Constituição europeia.
Que se aprove e sem referendo, a todo o gás!

além de estar fisicamente incapacitado de trabalhar e de escrever aqui muito, vamo-nos v(l)endo.

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